quinta-feira, 8 de agosto de 2013

EM TERMOS DE PRODUTIVIDADE O BRASIL TEM O 2º PIOR RESULTADO DA AMÉRICA LATINA


Muito embora a matéria não diga, mas o processo de deseindustrilização brasileira é a principal causa - fruto de uma poítica de crescimento cambaleante!
LONDRES - A produtividade do trabalhador brasileiro caiu "dramaticamente" em 2012. A constatação é do centro de pesquisas Conference Board. Levantamento anual diz que o fraco crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o contínuo aumento do emprego explicam a piora do desempenho nacional no ano passado. Os dados vão na contramão do discurso do governo que passou a ressaltar o aumento da competitividade nos últimos meses.
"O declínio mais dramático na América Latina foi no Brasil, que mostrou queda no nível de produção por pessoa empregada de 0,3% em 2012, após a desaceleração vista em 2010 e 2011", destaca o relatório. Com isso, a produtividade média do brasileiro ficou em 18,4% do desempenho médio de um trabalhador norte-americano. O movimento foi contrário à tendência global, já que a produtividade média mundial subiu 1,8% no ano, para 26,2% do observado nos Estados Unidos.
A pesquisa argumenta que a piora brasileira é fruto do fraco crescimento econômico somado à contínua melhora do mercado de trabalho. "O declínio da produtividade no Brasil foi o resultado da desaceleração da produção que cresceu cerca de 1% em 2012, ano em que o emprego cresceu 1,3%", diz o relatório. Ou seja, a produtividade caiu porque o número de trabalhadores aumentou em ritmo maior do que a produção. Assim, cada empregado acabou produzindo menos que um ano antes.
"A economia brasileira se deteriorou rapidamente sob a influência da desaceleração global, o que revelou a fraqueza interna que não era visível sob as elevadas taxas de crescimento dos anos anteriores", destaca o documento.
O estudo também calcula a eficiência do uso dos recursos de toda a economia - o que leva em conta, além do trabalho, outros fatores como infraestrutura, tecnologia e inovação. O chamado fator de produtividade total do Brasil caiu 1,8% no ano passado, também pior que outros emergentes e economias maduras. Sob essa ótica mais ampla, o estudo cita que "os principais problemas dizem respeito à infraestrutura inadequada, pouco investimento em novas máquinas e equipamentos, impostos elevados sobre o trabalho e melhora lenta na qualificação dos trabalhadores e da gestão".
COMPARAÇÃO
O resultado da produtividade do brasileiro foi o segundo pior na América Latina, só à frente da Bolívia, país em que indicador médio ficou em 11,4% na comparação com um norte-americano. Sempre em relação ao trabalhador dos EUA, o México tem índice de 34,4% e a Argentina, de 35,5%. Entre as demais nações do Bric, a comparação fica menos desigual para o Brasil: Índia teve produtividade de 10,2%, China ficou com 17% e a Rússia lidera o grupo, com 35,5% do resultado de um norte-americano. Em todos esses países emergentes, porém, o índice subiu em 2012. A produtividade dos chineses, por exemplo, saltou 7,4% em um ano.
O estudo do Conference Board compara a produtividade de trabalhadores de vários países do mundo em relação aos Estados Unidos. Por ser a referência do estudo, a produtividade de um norte-americano é usada como padrão. Portanto, de 100%. Entre os países ricos, a produtividade dos alemães está em 73,5%, dos franceses em 80,4% e, acima dos EUA, os trabalhadores de Luxemburgo têm índice de 105,2%. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

DÍVIDA TIRA NOVA CLASSE MÉDIA DE AVIÕES


É sintomático: se a economia não decola, as pessoas também não. O ritmo lento da atividade econômica brasileira é apontado por analistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, incluindo fontes do governo que acompanham o setor, como o principal fator para a queda no número de passageiros nos aeroportos no primeiro semestre. 

O desempenho cambaleante da economia levou as pessoas a voar menos, tanto a turismo como a negócios. O nível recorde de endividamento das famílias também comprometeu a renda destinada a produtos e serviços que não são considerados essenciais.

"As pessoas pensam: ou vejo meus parentes de avião ou troco a geladeira. Não há mais renda disponível para as duas coisas", diz uma fonte do governo que prefere o anonimato. Segundo ela, a classe média teve o "gostinho" de voar pela primeira vez, mas sentiu o baque do aumento dos reajustes dos preços das passagens feitos pelas companhias para compensar os altos custos do setor com o encarecimento do dólar.

Adalberto Febeliano, da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), explica que a expansão do setor aéreo deriva de outras atividades econômicas. Em média, o faturamento das companhias aéreas cresce o dobro do Produto Interno Bruto (PIB). Há exceções, como no ano passado, quando a economia expandiu quase 1% e as companhias aéreas tiveram crescimento de 6%. "Com o desempenho atual da economia, é de se esperar que o transporte aéreo não cresça quase nada", afirma.

PAÍS PERDE EM PRODUTIVIDADE PARA EMERGENTES


Crucial para alavancar o crescimento econômico de qualquer país, a produtividade do trabalho (a quantidade produzida por trabalhador) vem caindo nos últimos anos no Brasil. Tomando os Estados Unidos como parâmetro, a produtividade do trabalho local correspondia a 19% da produtividade americana em 2000 e caiu para 18% em 2012. Não bastasse a queda, a produtividade brasileira do trabalho é a pior entre uma série de países desenvolvidos, entre outros emergentes e até mesmo dentro da América Latina - todos na comparação com os Estados Unidos.

O Brasil consegue ficar à frente da Índia e da China, mas nos dois países a tendência do nível desse indicador econômico é de alta. No caso da Índia, a produtividade do trabalho representava 7% da americana em 2000 e hoje corresponde a 10%. Na China, o número saltou de 6% para 17%, o que significa que o nível de produtividade do Brasil era três vezes o chinês em 2000 e hoje tem uma diferença apenas residual. Os dados estão em estudo de Regis Bonelli e Julia Fontes, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

Os números mostram, contudo, que esse quadro de atraso de Índia e China em relação ao Brasil não deve se manter por muito tempo, pois o ritmo de crescimento das taxas de produtividade nos dois países é superior ao do Brasil. Entre 2000 e 2012, a taxa média de crescimento da produtividade do trabalho indiana ficou em 5,1% ao ano e a chinesa, o dobro disso (10,4% ao ano). Ambas, porém, são uma enormidade se comparadas à taxa de crescimento brasileira em igual período: de 1% ao ano.

Julia Fontes, do Ibre, avalia que o mais preocupante não é o nível, mas a taxa de produtividade local, "baixíssima" em sua avaliação. "O Brasil tem taxa de produtividade do trabalho de países desenvolvidos", diz a economista. Na Austrália, por exemplo, essa medida cresce a um patamar bem próximo ao do Brasil, de 0,9% ao ano, segundo o estudo. Mas o nível de produtividade do país chega a 87% do valor americano - quase cinco vezes o brasileiro.

Segundo Julia, está cada vez mais claro que o crescimento econômico do país está mais e mais dependente dos ganhos de produtividade. O problema, diz, é que os setores da economia que mais se expandem e que empregam mais gente são justamente os menos produtivos, com destaque para o setor de serviços. "O setor representa 67% do PIB, emprega muita gente e tem um nível e uma taxa de produtividade horríveis", diz Julia.

A baixa produtividade, contudo, não atinge o setor de serviços como um todo. Segundo Julia, há serviços bastante produtivos, como intermediação financeira e tecnologia da informação - que crescem a altas taxas de produtividade, mas empregam pouca gente. Intermediação financeira e seguros, por exemplo, segundo um índice chamado pela economista de "coeficiente de emprego", precisam de apenas quatro trabalhadores para gerar R$ 1 milhão em valor adicionado, mas empregam apenas 1% da população ocupada.

Já o segmento "outros serviços", no qual figuram cabeleireiro e manicure, emprega 27% da população ocupada e exige 62 pessoas para gerar R$ 1 milhão de valor adicionado. "É uma diferença gritante", afirma, ao ressaltar que a taxa de produtividade de "outros serviços" cresce a um ritmo pífio, de 0,3% ao ano, enquanto "intermediação financeira" cresce a uma taxa de 4% ao ano. Mesmo a indústria da transformação, quando comparada aos serviços como um todo, não está tão mal. Com 16% do total da população ocupada, o setor precisa de 25 trabalhadores para gerar R$ 1 milhão.

Segundo Carlos Eduardo Calmanovici, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadores (Anpei), os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) - fundamentais para o aumento da produtividade - são feitos majoritariamente por empresas do ramo da indústria, mas isso não quer dizer que P&D seja mais importante para um setor do que para outro.

Segundo ele, independentemente do setor, o Brasil perde competitividade por uma questão de custo. "Os salários subiram no Brasil e, em dólares, são elevados. O problema é que esse aumento da massa salarial não vem acompanhado de aumento da produtividade, prejudicando a nossa competitividade, os estímulos aos investimentos e o crescimento da economia de modo geral".

Para Julio Bezerra, diretor da empresa de consultoria empresarial Boston Consulting Group (BCG), as dificuldades do Brasil em aumentar a produtividade da economia nos últimos anos podem ser explicadas em boa parte por uma visão empresarial de curtíssimo prazo, além da falta de mão de obra qualificada, gargalos em infraestrutura, falta de investimentos e burocracia. Segundo ele, muitas empresas na década passada buscaram atender à demanda crescente apenas contratando mais gente e à custa de melhorias de eficiência. A incorporação de gente no mercado de trabalho explica, segundo Bezerra, 75% da expansão econômica do período.

Para ele, a queda do ritmo de crescimento da população economicamente ativa (PEA) e os limites de baixa do desemprego exigem que as empresas mudem o foco, com ganhos de produtividade vindos da automação produtiva, de esforços para aumentar o valor de produtos e, especialmente, da educação. "Em geral, o país tem um déficit de talento ligado ao problema ainda não resolvido da educação"

Fonte: Jornal Valor Economico, 02 de agosto de 2013