Fonte: Exame
Para
Gustavo Franco, a inflação não
cai no Brasil por causa da condução dapolítica fiscal. A política fiscal está errada, segundo o
ex-presidente do Banco Central (entre agosto de 1997 e janeiro de 1999, no
governo de Fernando Henrique Cardoso). “Não sei de onde veio a teoria de que a
situação fiscal brasileira era boa. Nesse momento começaram a liberar demais a
despesa e a situação, que não era boa, ficou ruim”, afirmou.
Para o economista, que é
filiado ao PSDB, com a Dilma, o governo do PT assumiu uma identidade mais
próxima do que foram os ideais teóricos do próprio partido. “O governo Lula, em
política macroeconômica parecia-se mais com o governo FHC e agora as diferenças
se acentuaram, num momento em que a economia começa a piorar”, disse.
No
final do ano, o estrategista-chefe da Rio Bravo e um de seus sócios fundadores
lançou o livro “As Leis Secretas da Economia”, para, com 74 leis, mostrar que a economia brasileira obedece a leis próprias.
EXAME.com - Algumas “leis” do livro falam
sobre previsões e expectativas que acabam não se concretizando. Recentemente,
isso aconteceu com a projeção do crescimento do PIB. O que significa esse
desacerto?
Gustavo Franco - O desacerto nas previsões é inevitável porque, como digo no
livro, é a “lei de Malan”: o futuro tem por ofício ser incerto, e eu diria que
o passado, às vezes, também. Diante dessa incerteza estrutural da economia,
qualquer previsão sempre está fadada ao erro, o melhor que você faz é jamais
trabalhar com previsão. A economia é um exercício coletivo e comportamentos das
coletividades tem por natureza serem incertos. O que fez o atual ministro da
Fazenda [Guido Mantega] foi mais a fixação de uma meta para si que uma
previsão, embora não tenha apresentado dessa forma, o que teria sido mais
prudente. Ele fala o número e vira previsão, é um pequeno erro que se
transforma depois em uma coisa cara para ele. Mas foi uma meta frustrada, ele
trabalhou para um crescimento maior e falhou. É até pior. Ficaria menos ruim se
fosse anunciado dessa forma [como uma meta pessoal]. A previsão, na verdade,
pressupõe uma capacidade que as pessoas não tem, ela é, em si, um ato
presunçoso. É mais humilde ter uma meta.
EXAME.com - Em junho, a inflação
acumulada em 12 meses poderá ultrapassar novamente o teto da meta. Porque o
Brasil não consegue baixar a inflação?
Gustavo Franco - Porque a política fiscal está errada, é muito simples. Nos
vínhamos com uma política fiscal no limite do que era estabelecido, com
superávit primário de 3%, que dava um déficit administrável. Tínhamos uma
situação precária que estava sob controle e foi essa a situação herdada pela
administração do PT. As metas fiscais não foram modificadas nos primeiros anos.
Não sei de onde veio a teoria de que a situação fiscal brasileira era boa,
nesse momento começaram a liberar demais a despesa e a situação, que não era
boa, ficou ruim. O que é mais doído é perceber que as autoridades fizeram de
propósito, acreditando no que estavam fazendo, aumentaram os gastos públicos,
pioraram o déficit público, achando que isso era bom para a economia. Foi um
erro e agora estamos pagando – com a possibilidade de downgrade, inclusive.
EXAME.com
- Qual pode ser o impacto de um rebaixamento do rating do Brasil?
Gustavo Franco - Piora tudo. A percepção de uma piora ampla é captada muito
na retórica dos empresários, que falam muito em perda de confiança, de
credibilidade e nada anda, a economia de mercado depende de confiança. Se você
está inseguro, sobretudo em razão de políticas de governo que são erráticas ou
erradas mesmo, nada anda, estamos com o país praticamente parado. O PIB não
anda, economia não cresce, isso com a economia em pleno emprego, sofremos um
período de expectativas deterioradas.
EXAME.com - Uma das leis apresentadas no
livro fala que “a inflação machuca (aleija), mas o balanço de pagamentos mata”,
como ela pode ser entendida hoje?
Gustavo Franco - A lei reflete um pensamento de que como os problemas
causados pela inflação como estão dentro de casa, você sempre pode empurrar com
a barriga, mas o da balança de pagamentos não dá para empurrar com a barriga.
Esse é o sentido da lei. Ficou pior hoje em dia, você não consegue mais
empurrar com a barriga o doméstico. É verdade que a balança de pagamentos mata,
talvez seja verdade que a inflação também mata.
EXAME.com - O Brasil tem que escolher
entre desemprego baixo e inflação baixa?
Gustavo Franco - Não, de jeito nenhum, esse é o tipo de discussão que havia
lá atrás. Essa é uma discussão que ficou para trás, suposta escolha entre
estabilidade ou crescimento, não existe isso, você pode ter as duas coisas, é
só fazer as coisas certas. É a política fiscal que está errada, a gastança está
descontrolada, politizada, sem lógica e fora de proporção.
EXAME.com - Nessa semana, o Ministro da
Fazenda falou que o investimento, que cresceu no primeiro trimestre, terá
expansão de até 7% esse ano. O Brasil tem condições de ter esse crescimento?
Gustavo Franco - Não. O nível de investimentos ainda é muito baixo,
ridiculamente baixo. O Brasil é um país de baixo investimento há muitos anos,
esse crescimento de agora não quer dizer nada, teríamos que crescer por muitos
anos para o Brasil ter crescimento consistente. Não creio que isso vai
acontecer em um futuro próximo porque vivemos um momento de falta de confiança
todo o mundo empresarial fala isso. Não é o momento de esperar grandes
iniciativas empresariais de expansão de capacidade. Mas entendo que o governo
festeje a estatística do primeiro trimestre.
EXAME.com
- Como o Brasil pode impulsionar os investimentos e a produtividade?
Gustavo Franco - Isso é um assunto muito vasto e que começa com uma mudança
de filosofia. O mundo empresarial gostaria de ver políticas públicas de várias
naturezas, todas voltadas para uma economia de mercado e que não é bem o que
temos visto nos últimos anos. Temos visto maior intervencionismo, que causa
insegurança no mundo empresarial e não adianta brigar contra isso, isso é como
o mundo funciona. Com mais intervencionismo o setor privado se amedronta.
EXAME.com - Como teria sido o crescimento
econômico em 2012 sem as intervenções?
Gustavo Franco - 2012, seguramente, teria sido melhor sem as medidas de
intervenção. Com exceção das medidas intervencionistas feitas no calor da crise
de 2008, que eram semelhantes talvez as que os Estados Unidos fizeram, todo o
resto das medidas intervencionistas terminou sendo de pouca efetividade ou
tendo o funcionamento contrário. O nível de investimento no Brasil está mais ou
menos parado há vários anos, em torno de 18%/19% do PIB e nesse intervalo o
BNDES triplicou de tamanho. Como o BNDES triplica e o investimento fica igual?
EXAME.com - Se as eleições fossem hoje,
qual seria o foco do debate econômico?
Gustavo Franco - Acho que os debates terão esses assuntos, como fazer o
investimento acordar, se engajar no modelo de crescimento e é um debate
interessante. Acho que o governo do PT assumiu uma identidade mais próxima do
que foram os ideais teóricos do PT, o governo Lula, em política macroeconômica
parecia-se mais com o governo FHC e agora as diferenças se acentuaram, num
momento em que a economia começa a piorar. Tem muita convergência de opinião
sobre como conduzir as coisas, é ótimo que o governo reduza a taxa de juros e
isso todo mundo quer. Todo mundo quer a mesma coisa, a questão é o modo de
fazer e o bom é ter um debate do modo de fazer.